Por que a Seleção voltou a ter psicóloga em 2026?

Nenhuma seleção chega a uma Copa do Mundo sem nutricionista, fisiologista ou analista de desempenho. Mas, por duas edições seguidas, a Seleção Brasileira disputou o torneio mais pressionado do planeta sem um profissional dedicado à mente dos jogadores. Em 2026, isso mudou: a psicologia voltou à delegação brasileira.

A decisão parece um detalhe de bastidor. Não é. Ela reabre uma discussão que o futebol brasileiro empurrou para debaixo do tapete desde o trauma de 2014, e revela para onde caminha a profissão de psicólogo do esporte no país.

Neste artigo, você vai entender o histórico da psicologia na Seleção, o que a ciência diz sobre pressão em jogos decisivos, o que uma psicóloga faz de verdade dentro de uma comissão técnica e como está o mercado para quem quer atuar na área.

Principais pontos

  • A Seleção Brasileira voltou a contar com psicóloga na Copa de 2026, após disputar as edições de 2018 e 2022 sem o profissional na comissão fixa.
  • Pesquisas do professor Geir Jordet (Escola Norueguesa de Ciências do Esporte) mostram que o comportamento sob pressão em pênaltis é treinável e seleções que investiram nisso, como a Inglaterra, mudaram seu histórico.
  • A psicologia do esporte é especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia no Brasil, e a demanda por especialistas cresce nos clubes das séries A e B.

Em 2026, a CBF incluiu novamente uma psicóloga na delegação que disputa a Copa do Mundo. A profissional escolhida foi Marisa Santiago. Foi a primeira vez desde 2014 que a função aparece de forma estruturada em uma Copa. A leitura é direta: a comissão técnica entendeu que decisão de mata-mata não se vence só com físico e tática.

O movimento acompanha uma tendência global. Depois da pandemia, a saúde mental de atletas deixou de ser tabu: casos como os de Simone Biles na ginástica e de jogadores que falaram abertamente sobre ansiedade e depressão forçaram federações a agir. A FIFPRO, sindicato mundial dos jogadores, vem publicando desde 2015 estudos que apontam prevalência significativa de sintomas de ansiedade e depressão entre atletas profissionais em atividade.

E há o fator esportivo puro: das últimas cinco eliminações do Brasil em Copas, pelo menos três passaram por disputas de pênaltis ou por colapsos emocionais documentados. Ignorar a variável mental deixou de ser uma opção defensável.

O que muda na prática com uma psicóloga na delegação? Rotina estruturada de preparo mental: protocolos de cobrança de pênalti, gestão da ansiedade pré-jogo, suporte individual a atletas sob crítica pública e trabalho de coesão do grupo ao longo de semanas de confinamento em concentração.

Qual é o histórico da psicologia na Seleção Brasileira?

A relação da Seleção com a psicologia sempre foi de aproximação e afastamento. O caso mais emblemático é o de Regina Brandão, pioneira da psicologia do esporte no Brasil, que trabalhou com Dunga em clubes e na própria Seleção, e que, em 2014, foi chamada às pressas por Luiz Felipe Scolari durante a Copa, depois que os jogadores desabaram emocionalmente na disputa de pênaltis contra o Chile, nas oitavas de final.

A cena ficou marcada: atletas chorando compulsivamente em campo antes mesmo do fim da decisão. Dias depois, veio o 7 a 1 contra a Alemanha. A intervenção psicológica de emergência, feita no meio do torneio, virou o símbolo do improviso brasileiro na área.

Nossa leitura: o problema de 2014 não foi a presença tardia da psicóloga. Foi tratá-la como bombeiro, e não como parte do projeto. Preparo mental de emergência tem o mesmo efeito de treinar pênaltis na véspera: quase nenhum. A comparação com a Inglaterra, que estruturou o trabalho com anos de antecedência, deixa isso evidente.

Nos ciclos seguintes, a função não se consolidou. Nas Copas de 2018 e 2022, a comissão técnica não contava com psicólogo dedicado em tempo integral na delegação. O resultado esportivo se repetiu: em 2022, o Brasil caiu nos pênaltis diante da Croácia, com Rodrygo e Marquinhos desperdiçando cobranças em um ambiente de pressão máxima.

O que a pressão faz com um jogador em uma decisão de Copa?

A resposta curta: altera percepção, tempo de reação e tomada de decisão. O pesquisador Geir Jordet, da Escola Norueguesa de Ciências do Esporte, analisou centenas de cobranças de pênalti em Copas e Eurocopas e encontrou padrões claros de comportamento sob pressão. Acesse aqui o estudo.

Entre os achados mais citados de Jordet:

  • Jogadores que apressam a cobrança, batendo menos de um segundo após o apito, convertem significativamente menos do que os que respiram e controlam o próprio tempo.
  • Atletas de maior status (craques, vencedores de prêmios individuais) tendem a sentir mais o peso da expectativa e, em alguns recortes, erram mais do que coadjuvantes.
  • Evitar o olhar para o goleiro e virar as costas ao ambiente são comportamentos de fuga associados a taxas menores de conversão.

A conclusão que interessa ao futebol brasileiro: nada disso é sorte ou “frieza natural”. São comportamentos observáveis, mensuráveis e, principalmente, treináveis. É exatamente esse o território da psicologia do esporte.

Em 2026, com o novo formato de Copa alongando o mata-mata, a exposição a cenários de pênaltis e prorrogações tende a aumentar, o que torna o preparo mental ainda mais decisivo do que nas edições anteriores.

O caso da Inglaterra: quando a psicologia mudou o histórico de uma seleção

Se existe um case que justifica a decisão da CBF, é o inglês. Até 2018, a Inglaterra carregava uma das piores marcas em disputas de pênaltis entre as grandes seleções, com eliminações traumáticas acumuladas desde 1990. A federação inglesa (FA) decidiu atacar o problema na raiz: contratou a psicóloga Pippa Grange em 2017 para trabalhar cultura, vulnerabilidade e rotinas de pressão com o elenco de Gareth Southgate. Ele próprio, ironicamente, autor de um pênalti perdido histórico na Euro 96.

Na Copa de 2018, a Inglaterra venceu a Colômbia nos pênaltis nas oitavas de final, sua primeira vitória em disputa de pênaltis em Copas do Mundo. O trabalho conduzido por Grange, com protocolos de cobrança, controle de respiração e dessensibilização da pressão, foi apontado pela própria comissão como fator central da virada.

O método incluía detalhes que parecem banais e não são: definir com antecedência a ordem dos batedores, ensaiar a caminhada do meio-campo até a marca, padronizar a respiração antes do apito e até a forma de comemorar cada gol convertido, porque a comemoração coletiva alimenta o próximo batedor.

Para o leitor brasileiro, a pergunta incômoda é inevitável: quantas eliminações o Brasil poderia ter evitado com um trabalho equivalente iniciado em 2015, em vez de improvisado em 2014 e abandonado depois?

O que faz uma psicóloga do esporte na prática?

Aqui mora o maior mito da área. Psicólogo do esporte não é o profissional que “conversa com o jogador triste” nem o motivador de vestiário com frases de efeito. É um especialista em comportamento humano aplicado ao desempenho, que atua em pelo menos cinco frentes dentro de uma comissão técnica:

1. Preparação para cenários de pressão. Protocolos de pênaltis, rotinas pré-jogo, técnicas de regulação emocional (respiração, foco atencional, autofala) treinadas com a mesma repetição de um fundamento técnico.

2. Gestão individual do atleta. Suporte a jogadores em má fase, sob ataque nas redes sociais, voltando de lesão grave ou lidando com a distância da família, situação crítica em concentrações longas de Copa.

3. Coesão e cultura de grupo. Trinta jogadores disputando onze vagas, egos, hierarquias e panelas: o ambiente do grupo é uma variável de desempenho, e é gerenciável.

4. Suporte à comissão técnica. O técnico também decide sob pressão. A psicologia ajuda a qualificar a comunicação treinador-atleta, como dar um feedback duro sem quebrar a confiança de um titular às vésperas de uma final.

5. Transições de carreira. Da base para o profissional, de reserva para titular, do auge para a aposentadoria. Cada transição é um momento de risco psicológico documentado na literatura.

No dia a dia de uma Copa, isso significa presença silenciosa: observar treinos, mapear sinais de sobrecarga, sessões individuais discretas e reuniões com o técnico. O bom trabalho psicológico em um torneio raramente aparece — a não ser quando falta.

Como está o mercado de psicologia do esporte no Brasil?

Em crescimento, e ainda com muito espaço. A psicologia do esporte é reconhecida oficialmente como especialidade pelo Conselho Federal de Psicologia, o que significa que o psicólogo pode obter registro de especialista na área, com formação específica após a graduação.

O movimento dos clubes acompanha. Nas séries A e B do Brasileirão, departamentos de saúde e performance vêm incorporando psicólogos de forma permanente, impulsionados por três fatores:

  • Exigências de certificação de clubes e da base: as diretrizes de clube-formador da CBF valorizam a presença de profissionais de psicologia nas categorias de base.
  • O precedente da Seleção: quando a equipe mais visível do país estrutura a função, clubes tendem a replicar, o mesmo efeito cascata visto com analistas de desempenho na década passada.
  • Pressão social pós-pandemia: torcida, imprensa e os próprios atletas passaram a cobrar publicamente estrutura de saúde mental.

O ponto cego do mercado, porém, está na formação. A graduação em Psicologia raramente prepara para o contexto esportivo: rotina de clube, linguagem do futebol, relação com comissão técnica, métricas de desempenho. O profissional que chega ao vestiário apenas com o repertório clínico tradicional costuma ser rejeitado pelo ambiente, não por má vontade dos atletas, mas por falta de fluência no contexto. É essa lacuna que formações especializadas em psicologia do futebol vieram preencher.

Quer atuar com psicologia no futebol?

Se você leu até aqui, provavelmente se encaixa em um destes perfis: é psicólogo(a) buscando um campo de atuação em expansão, é profissional do futebol querendo entender a dimensão mental do jogo, ou é estudante decidindo a especialização.

A volta da psicóloga à Seleção não é só uma notícia de Copa. É o sinal mais claro de que o mercado brasileiro amadureceu e vai demandar especialistas nos próximos ciclos.

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Mattheus Rocha
Mattheus Rocha
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